Grande ABC elimina 43,6 mil vagas formais

As empresas do Grande ABC eliminaram 43.614 postos de trabalho com carteira assinada em 2015. Os dados são do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) e foram divulgados ontem pelo Ministério do Trabalho e Previdência Social. O saldo (diferença entre admissões e demissões) supera em três vezes o do ano anterior e é o mais baixo desde pelo menos 2004 – início da série histórica com recorte municipal disponibilizado pela Pasta.

A situação do emprego formal na região é ainda mais alarmante se levados em conta os resultados de 2014, quando já houve saldo negativo, de 14.369 vagas. Portanto, em dois anos foram contabilizadas 57.983 demissões. O volume é maior do que toda a população de Rio Grande da Serra. Para se ter ideia da gravidade da crise, entre 2004 e 2013 as empresas do Grande ABC efetuaram 270.795 contratações de pessoas com carteira assinada. O último biênio representou fechamento de 21,4% dos postos que haviam sido abertos.

Todos os meses de 2015 registraram saldo negativo, sendo que o pior deles foi dezembro – período marcado por admissões –, com déficit de 8.988 vagas. “Isso é reflexo claro da baixa atividade econômica e de como ela tem afetado os diversos setores de atuação”, comenta o professor Sandro Maskio, coordenador do Observatório Econômico da Universidade Metodista. Ele cita que o desaquecimento é provocado, entre outros fatores, pelo ajuste fiscal feito pelo governo federal para tentar equilibrar as contas públicas – no acumulado de 12 meses até novembro, o déficit primário divulgado pelo Banco Central foi de R$ 52,4 bilhões, equivalente a 0,89% do PIB (Produto Interno Bruto).

“O maior agente econômico no País, pensando individualmente, é o governo. Quando ele diminui o consumo, cai a demanda. Se reduz o investimento, reduz o capital na economia”, comenta Maskio, justificando os impactos do ajuste fiscal. O especialista acrescenta que os juros elevados no País (a taxa básica, a Selic, está em 14,25% ao ano) também desestimula a atividade produtiva, já que os fundos de investimento apresentam boa rentabilidade, enquanto a produção tende a gerar retorno inferior, em razão da queda na demanda.

Sem perspectiva de melhoras, o economista Ricardo Balistiero, coordenador do curso de Administração do Instituto Mauá de Tecnologia, avalia que as demissões devem continuar em ritmo acelerado neste semestre. “Acredito que a taxa de desemprego (que ficou em 7,5% em novembro) deve atingir os dois dígitos ainda no primeiro trimestre, mesmo com o ministro Nelson Barbosa (Fazenda) tentando animar o mercado (na região, o percentual já atingiu 12,2%).” Em Davos, na Suíça, durante o Fórum Econômico Mundial, Barbosa disse a investidores que o Brasil está em “processo de reequilíbrio macroeconômico”, e que o País oferece “boas oportunidades em infraestrutura e outras áreas”. “O Nelson Barbosa está parecendo aeromoça, que, mesmo com o avião caindo, continua sorrindo até o fim.”

DADOS NACIONAIS - Em todo o País, foi fechado 1,542 milhão de postos formais de trabalho em 2015, o pior resultado desde 1992 – ano em que o ex-presidente Fernando Collor de Mello sofreu impeachment. Em dezembro, o saldo também foi negativo, com 596,2 mil cortes. Apesar dos recordes, o Ministério do Trabalho faz questão de destacar que o estoque de empregos, de 39,6 milhões, é o terceiro maior da série histórica do Caged.


Setor de serviços foi o que mais encerrou postos no mês passado

Contrariando o que era tendência no Grande ABC, o setor de serviços foi o que mais cortou postos formais de trabalho em dezembro de 2015, com 4.149 demissões. Até então, a indústria era o segmento de atividade que mais eliminava vagas. No mês passado, as fábricas da região desligaram 3.137 trabalhadores.

Os outros grandes setores também tiveram saldo negativo no mês passado: construção (-935) e comércio (-776).

Na totalidade do ano, entretanto, a indústria continua sendo a recordista de demissões, com 24,5 mil dispensas. Em seguida estão serviços (-12,1 mil), comércio (-3.430) e construção (-3.386).

O professor Sandro Maskio, coordenador do Observatório Econômico da Universidade Metodista, explica que a indústria já veio efetuando cortes ao longo de todo o ano e que, portanto, não precisou fazer grande ajuste de mão de obra em dezembro.

O economista Ricardo Balistiero, professor do Instituto Mauá de Tecnologia, comenta que a tendência é que os desempregados passem a atuar na informalidade ou que se arrisquem na abertura de negócios.


Fonte: Diário do Grande ABC